Como sobreviver a tantas inovações

A maior inovação, hoje, seria inventar uma maneira de esticar o tempo… Não se trata de rejuvenescimento ou expectativa de vida – nem distinção entre trabalho e ócio. A inovação seria um aplicativo para esticar as horas, os minutos, os segundos. Para situar nossos desejos e compromissos dentro das medidas de tempo. Quando percebo o grau de ansiedade, frustração e superficialidade que invade hoje os relacionamentos interpessoais, em qualquer idade e profissão, torço para que estejamos vivendo uma transição para algo melhor. É preciso, por exemplo, encontrar…
– tempo para escutar: escutar o pai, a mãe, o colega de trabalho, o chefe, o amigo, o vizinho, o paciente, o desconhecido. Ninguém escuta mais ninguém. Tem gente que ainda acha que pode escutar alguém fazendo outra coisa simultaneamente. Não pode. No fim, há uma algazarra de palavras jogadas fora, que batem na parede e voltam;
– tempo para ler: nem me refiro a romances e livros. As pessoas não leem sequer um e-mail inteiro;
– tempo para pensar: em vez de pensar duas vezes antes de agir, as pessoas agem duas vezes antes de pensar. Essa agilidade exacerbada pode até dar certo em alguns casos, mas pode custar caro em outras. A falta de tempo para refletir leva a decisões e conclusões precipitadas, que não costumam ser as mais sensatas;
– tempo para encontrar amigos (e não seguidores): as redes sociais ameaçam tornar a amizade uma ilusão. Os rituais da amizade se perderam na exposição obsessiva e narcisista de detalhes da vida pessoal;
– tempo para férias verdadeiras – a extrema competitividade faz com que muitos não tirem férias e continuem ligados ao trabalho;
– tempo para respirar: não é por acaso que os cursos de respiração fazem hoje tanto sucesso. Desaprendemos a respirar e, por isso, tanta gente vive com excessiva sofreguidão e insônia.
– tempo para cuidar da saúde: não faz sentido as pessoas não terem tempo para fazer exames ou se tratar. Ou sentir culpa por dedicar tempo a sua saúde. Isso se chama autodestruição.
Com tudo isso, poderíamos viver com um mínimo de cordialidade, leveza e calma. Qualidades que parecem ter sofrido curto-circuito num mundo interconectado demais.

(Ruth de Aquino. Revista Época, 23/09/2013. Adaptado

Anúncios

olá

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s